Dizem que quando a lua está cheia e as estrelas se debruçam sobre os rios da Amazônia, um som suave de água mexida rompe o silêncio da noite.
É o sinal.
O momento em que ele desperta.
Das profundezas silenciosas, emerge o boto-cor-de-rosa — uma criatura mística, encantada, que só conhece a terra durante as noites de festa. Mas ele não vem como peixe.
Vem como homem.
Com um dom herdado das águas e dos encantos antigos, o boto se transforma:
Seus olhos ganham forma humana. Sua pele úmida dá lugar a um terno branco impecável. Nos pés, sapatos reluzentes. Na cabeça, um chapéu branco que nunca tira, usado para esconder o que não pode ser disfarçado — o nariz alongado, sinal de sua verdadeira natureza.
E então ele vai.
Caminha pelas ruas banhadas em luz de lampião, até encontrar a festa.
Sempre chega tarde. Sempre chega sozinho.
Mas nunca vai embora assim.
Entre risos, danças e olhares trocados, ele se aproxima das moças solteiras, especialmente daquelas que sonham com um amor avassalador, com olhos distantes e alma leve.
Ele fala pouco, mas o bastante.
Seu jeito é doce, seu olhar, hipnótico.
E assim, como quem oferece a eternidade, as convence a acompanhá-lo.
Mas ele não leva para casa.
Leva para o rio.
Lá, no fundo das águas, entre algas e silêncio, dizem que ele as engravida — deixando para trás apenas a lembrança de uma noite mágica… ou maldita.
Quando a primeira luz do dia toca a superfície da água, o encanto se quebra.
O homem desaparece.
E onde antes havia um belo estranho, resta apenas o boto, nadando calmo, com olhos que escondem segredos das margens.
Muitos dizem que é só lenda.
Mas nas vilas ribeirinhas, ainda há quem proíba as filhas de irem sozinhas às festas de São João.
Porque ele volta.
Sempre volta.
Vestido de branco, chapéu na cabeça e sorriso nos lábios.
O encantador das águas. O pai de filhos sem rosto. O eterno Boto.